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Rainha Joana tinha acabado de cair em seu segundo quarto, que era um quarto estranho, pois não tinha teto. Essa foi a primeira vez que ela viu como era grande o céu e como ela era pequena. Logo ela imaginou que seria tão grande quanto céu e ficou hipnotizada olhando as formas das nuvens, a força do sol e todo aquele azul! Como era azul! Mas o calor era grande e ela não estava acostumada a toda aquela iluminação, Joana não conseguia suportar o calor e quis buscar abrigo.
A janela no qual ela havia caído estava muito alta para poder ser escalada de volta. Em pleno desespero ela pulava e tentava flutuar como as nuvens lá para cima, mas não dava, ela não conseguia sair do chão. Sem alternativa, começou a olhar seu novo habitat e pela primeira vez ela se viu no que seria um cárcere, ela não podia voltar para sua origem. Ao caminhar por entre as quatro paredes percebeu que o chão não era pedra e que as paredes eram verdes e estranhas coisas brotavam desse verde do chão e eram marrons e duras e no alto delas tinham também mais coisas verdes e outras amarelas redondas. Essa foi a primeira vez que Rainha Joana viu uma árvore, que viu uma grama, frutas, trepadeiras… E em sua exploração descobriu que em baixo da árvore não era tão quente quando fora dela. Lá ela ficou por horas só observando o que era esse novo mundo.
Seu maior conflito foi ver que ela não era azul, nem branca, nem cinza e ela não brilhava. Ela não era feita de céu. Seria o céu algo ruim? Fizera a ela tão mal! Sua pele agora rubra cintilante ardia e ela chorou pela primeira vez. Seu choro foi calado, lágrimas e só. Ela ficava na sombra, a água escorria dos seus olhos e ela não entendia. O que aconteceu!? O que era aquilo?! Quando a fome chegou e ela não tinha o que comer o verdadeiro desespero bateu. O que comer? Onde estaria aquela mulher que sempre trazia comida?
Joana dormiu fraca de fome, ardendo de sol e envolvida pelo sereno. Acordou pela primeira vez em desconforto e enferma acompanhada pelo sol leve da alvorada. O sol dessa vez se fez de companhia, acordou-a com leves raios ainda frios. Joana tossia e não sabia o que fazer para seu bem estar. Apenas sentou-se contra o tronco da arvore e viu o sol ganhar força e subir.
Uma bola amarela caiu da arvora ao seu lado. Joana levou um susto tremendo e levantou rapidamente e correu para o outro lado da arvore, mas como a bola amarela não se mexia ela foi devagar se aproximando do objeto até chegar ao ponto que o agarrou com as duas mãos e sentiu um aroma azedo cítrico. Esse cheiro ela não tinha sentido ainda e deixou-a muito curiosa. Esticou sua língua e muito de vagar lambeu a casca daquela fruta que era extremamente azeda e amarga ao mesmo tempo. Os olhos de Joana lacrimejaram mais uma vez, ela buscou por água, mas não encontrou em lugar algum.
Uma gota pingou em sua cabeça. A menina olhou para cima e viu todas as folhas encobertas por água, consequência do sereno noturno condensado. Com o resto de suas forças a Rainha fez de tripas coração para conseguir escalar a árvore e beber as pequenas e quase nulas gotas de água que repousavam sobre as plantas. Dessa forma durante quase uma hora a rainha Joana saciou sua sede.
Ela ficou sentada em um tronco gordo da árvore sentindo saudades do seu antigo quarto, da comida, da janela, do pedacinho pequeno de céu em que ela amava tanto. Agora ela tinha tanto céu para amar que ela não amava céu algum. Quase se negava a olhar para cima. Sentia desgosto. Ela não queria mais flutuar nem ser a chuva nem ser o trovão. Quem era ela? O que era aquela mulher? Rainha Joana não sabia o que fazer, não queria sair da árvore. Decidiu ficar lá para sempre.
O máximo que fez ao longo dos dias foi beber água das plantas e lamber cascas de frutas cítricas pala aliviar de mentirinha a sua fome que era imensa.
Um dia Joana dormiu e não conseguiu acordar mais direito, estava muito fraca. Nesse dia a mulher do primeiro quarto apareceu a pegou no colo e a levou para o que passou a ser seu terceiro quarto.
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Ele realmente não respirava. Vivia, mas não respirava. Vivia em agonia. Tinha gente que dizia que ele vivia da vontade de viver, outros que ele era um castigado talvez por coisas feitas em vidas passadas. Ninguém sabia como ele vivia, mas ele vivia.
O homem que não respirava era fraco. Não tinha força para nada. Não andava, se arrastava. Mal comia. Comer era uma tortura. Alimentavam ele. O homem que não respirava queria respirar e também queria andar e tudo mais… Ele vivia preso à sua impotência. Tudo era uma tortura. Imune a quedas, a afogamentos, a cortes… A vida era sua prisão.
Ele não tinha deus nem filosofia, muito menos qualquer razão. Ele evitava pensar. Tentava não existir. Mas a existência o perseguia, o acordava, o aportunava. E ele… aguentava. Não queria… mas conseguia. Ele era quase imortal.
Esse homem, pobre coitado, não podia falar, não sabia sorrir… E sofria horrores com músicas sobre felicidade. Ele odiava instrumentos musicais, poemas, histórias, pessoas… A vida não lhe era um passeio pelo mundo. A vida era seu cárcere. Pobre infeliz…
O homem que não respirava também não dormia e por consequência também não sonhava. Ele nada amava. E se tivesse um sonho, este seria respirar.
Ele passou um infinito e meio sem nada, sem poder nada, sem saber nada. Um dia, assim, do nada, quase por acidente, ele respirou. E respirar doeu. Doeu muito! Ardeu, corroeu, o deixou tonto… Ele respirou por um dia inteiro. Nesse dia ele viu o que é respirar, viu o que é caminhar… Comeu até um sorvete de limão! Perguntaram para ele como era isso de respirar. Ele, sem saber falar, por nunca ter falado, respondeu com os olhos e com os ombros: Não é nada demais.
O mundo que havia se comovido com a história do homem que não respirava que passou a respirar não suportou seu desdém pelo ar. Nesse mesmo dia, aquele homem infeliz foi morto por uma legião de fanáticos pela vida. Ele não merecia respirar, exclamavam os homens pela rua. Religiosos, homens públicos, sábios e prostitutas todos concordavam: Aquele homem nunca mereceu o ar que respirou! Que exemplo mais horrível ele era para as crianças! Qual seria o exemplo dele? Ele era um monstro! Mas as crianças discordaram. E uma veio me falar sussurrando com medo dos outros adultos: Eu acho que ele nunca respirou de verdade.
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Faz tempo que eu não danço sóbrio, pensei antes de tomar o primeiro gole. Nessa noite, como em várias outras, dancei embriagado. Alguém comentou comigo que homem que é homem não dança por diversão, dança só para conquistar mulheres. Engraçado que eu não conquisto mulheres quando danço, e a bebida, minha parceira de dança, não me deixa mais soltinho para conquistas. Por isso comecei a escrever. Mulheres amam poemas, mas nem com eles conquistei uma mulher. Mas um homem com violão é irresistível, pensei. Pensei em vão. Pois tocando violão continuei no mesmo marasmo amoroso. Filmes? Um cineasta sempre conquista as mais diversas atrizes! Que atrizes? Elas nem olham pra mim.
Fui levando a vida nesse sentido, da conquista, dos atributos jeitosos para uma conquista… Mas acaba que no fundo no fundo o que importa é atitude. E isso eu não tenho. Sou passivo. Poeto e punheto. Quando vou dançar bebo e quando vou dormir abraço os travesseiros extras. Assim vivo eu com a solidão.
Entre um gole e outro e um dia e o outro vou criando. Criar é minha companhia. O novo me mantém vivo. Desta forma, todo o não acontecido pode acontecer. Ficticio todos os meus descasos amorosos. Assim minto para mim uma vida mais saborosa.
Uma vez, quando soube que uma morena que estudava comigo tinha terminado o namoro com o homem da vida dela fui falar sobre como queria ter-la. Ela respondeu como ela não queria o mesmo. A história termina aí. Coube a mim sonhar como seria essa história se ela fosse um pouco mais alegre (pura mutilação psicológica) onde a morena olhava pra mim com aqueles olhos verdes caribenhos e respondia – Finalmente! Eu sempre te quis! Nunca tive coragem para falar isso… Mas desde que eu te vi, desde que te ouvi, eu já sabia! Você é pra mim. Não tenho dúvidas! - Desta forma começaríamos um maravilhoso romance onde a felicidade predominaria irremediavelmente Independente da situação. Seriamos um par, um o apoio do outro, um o calor do outro. Eu daria tanto prazer pra ela que seria até mentira. Deus ia me dar uma medalha. Teríamos filhos estupendos, etc, etc, etc…
Enquanto escrevi isso bebi quase um copo de uma bebida, fumei dois cigarros, deitei angustiado na cama e pensei em como é triste estar escrevendo isso, como é antiquado, como é inadequado e como eu deveria apagar esse texto… Porém continuo. Preparo-me para pegar mais gelo, para encher mais um copo e assim que eu sentar-me acenderei mais um cigarro.
(Acendi) (tomei um gole) (trago) Agora penso em como o cigarro me faz sentir mal e angustiado, mas tudo bem. Vou continuar com as histórias. (trago)
A morena nunca me deu uma chance, um beijo, um nada. O mais perto que ela chegou da minha boca está registrado numa fotografia (gole) onde ela botou seu dedo no meu lábio inferior (trago) acredito que nesse dia ela tinha bebido.
Outras mulheres passaram na minha vida. (gole) Tive minha ex-namorada, (trago) (trago) foi bom demais. Imagino como seria se um dia ela se deixasse sair comigo mais uma vez. Morro de saudades dos abraços dela (gole). Levaria ela para vários shows… Teve uma garota meio alemã e meio espanhola que eu só não namorei por incompetência. Tive dez milhões de oportunidades de fazer tudo com ela… Talvez eu estaria até hoje (gole) com ela e não teria conhecido nem a minha ex nem a morena… (apaguei o cigarro)
Não quero mais escrever. Um amigo me ligou. Acho que vou para um bar.
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Tudo bem, tudo estava acabado. E agora? Nada a fazer. Tinha o sono, tinha a preguiça… E aquela sensação horrível de tudo estar acabado.
Dava para dormir, mas o sol não deixava de forma alguma. Seja pelo calor ou pela própria luz. O sol, desgraçado. Maldito. Acabou com o resto do nada que me sobrava. Olhei para ele e xinguei. Taquei uma pedra, cuspi no chão e murmurei outras palavras sórdidas. Andei para lá e para cá por uma certa distância e um certo tempo. O sol estava escaldante! Enfurecedor! Sentei-me numa sombra e reclamei. Reclamei, reclamei, reclamei. Reclamei até minha sombra acabar. Quando ela acabou reclamei mais um pouco com mais intensidade. Reclamar pra quê?! Pensei. Reclamar é uma droga. Não serve pra nada. Parei de falar. Quis cortar minha língua fora. Falar… Que coisa mais estúpida. Olhei para o sol, ele me olhou… Não precisávamos falar nada, nos entendíamos perfeitamente. Ele com sua arrogância e eu com minha insignificância. Quis chorar já que ter raiva não adiantava, mas chorar tampouco adiantava. Então a raiva voltou, ela parecia mais eficaz.
O sol me perseguia, me cutucava, me fazia suar. O suor me tomava. Um pingo escorrido da testa caiu no meu olho. Gritei. Céus! Por quê? Por quê? Por quê?! Cuspi mais uma vez no chão e taquei pedras no sol. Tudo em vão. A ardência era a mesma. Poderia ter ficado parado só sentindo o olho arder. Nada mudou. Nada mudaria. Deitei no chão. Fiquei olhando o sol. Fitava sua alma macabra. Se ele quiser me cegar que cegue! Se ele quiser me matar desidratado que mate! Dane-se. Ensopei-me numa poça de suor. Minha visão escureceu. Posso ter queimado minha retina. Ele é mais poderoso que eu.
Levantei para vagar, vaguei. Continuei ensopado esbarrando em pedras e tropeçando em buracos. Existia a possibilidade do meu dedo do pé estar sangrando. Minha cabeça atingiu algo duro. Caí no chão. Caí numa sombra. Sorri de leve. Fiquei lá mais um tempinho. Acho que escureceu. Um frescor chegou. Sorri mais um pouquinho. Fiquei ali deitado. Sede, dor, fome, fraqueza. Dormi. Aconteceu que eu não acordei. Mas isso não importa. Pensei: Tudo bem, tudo estava acabado mesmo.
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Quando Rainha Joana veio ao mundo não era Rainha ainda. Ela era filha do desespero de seus pais, filha do fim de uma guerra desastrosa para os descendentes da coroa, filha da morte de seus irmãos, primos, tios. Filha do fim das gerações. Joana devia ser João, mas nasceu Joana. Sua mãe, para o desespero de seu pai morreu no parto. Joana era o fim da linha. Joana, ainda criança, já tinha futuro de Rainha.
Nessa família havia um costume diferente. Todos aqueles que seriam donos do poder, os futuros Reis, teriam que passar por cem quartos ao longo de sua juventude e infância, nenhum lugar mais. Quando saíssem do último quarto, estariam prontas para o poder.
Nas fabulas do povo daquele reino, dizia-se que esses quartos eram fruto de bruxarias e feitiços. Acreditava-se que quem saísse do centésimo quarto obtinha poderes além do imaginável, portando merecia estar no poder e merecia ser amado por todos.
Joana foi posta em seu primeiro quarto dois dias após seu nascimento. Uma serva era encarregada de alimentar a menina e limpar seus restos até o dia em que ela pudesse comer e se limpar sozinha, nada mais. Não podia em hipótese alguma sair do quarto, nem falar com a menina, nem abraçá-la, nem carregá-la. No silêncio de seu primeiro quarto, Joana cresceu sozinha. Limitada a quatro paredes, seu mundo era comer e dormir.
Joana não chorava, nem temia monstros ou o escuro. Seu quarto era iluminado pelo sol da manhã vindo de uma alta janela e tinha somente uma cama, um jarro d´água, um pinico e uma porta. Passava seu tempo olhando a janela. Acompanhava as nuvens que passavam breve, amava os trovões e era ninada de vez em quando ao som da chuva ou do vento.
Seus primeiros sons foram de chuva e de vento, fazia os sons mais diversos! Chuva fraca, chuva forte, chuva e trovão, vento e trovão, todo tipo de trovão… Imitava como se fosse filha da chuva e do vento e do trovão. Ela se mexia como se fosse nuvem, vagava leve, quase flutuava. Tinha vezes que ela andava mais devagar, mais pesada. Quando quase estava parada, fazia os sons de vento antes de temporal, depois virava o temporal. Corria e corria e chovia! Ela era a água, ela tinha o raio, ela fazia o trovão, se alguém ouvisse de olhos fechados aquela cena, acreditaria que aquilo era chuva de verdade. Ela era a chuva de verdade.
Sua comida e sua água eram servidas e seu pinico trocado uma vez por dia pela serva que entrava e saia com a maior discrição. Joana tinha curiosidade, não entendia o que era aquela mulher, ou melhor, não entendia o que era aquilo que sempre entrava e saia. Olhava atenta e aos poucos percebeu que atrás daqueles panos haviam braços e pernas como as dela, que haviam pés e mãos como as dela e dedos como as dela. Mas sua curiosidade maior era focada no céu.
Ela ficava sentada a maior parte do tempo, não sabia o que mais fazer, quando o céu era azul nada acontecia, quando ela era o céu azul, não precisava fazer nada e ficava.
Um dia, Joana quis alcançar a janela, ela quis se juntar ao céu. Resolveu escalar as pedras da parede e escalou! Subiu bem alto e viu nesse dia, um pouco mais de perto, o céu: Sua mãe, seu pai, sua família inteira.
Joana pulou a janela em direção à sua família e caiu. Aquela não era sua família, e sem perceber entrou no seu segundo quarto.
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Insistir não adianta, quando deus não quer, não tem jeito. O Thiago David não pode viver uma paixão.
As pessoas vêm ao mundo com diferentes propósitos, com diferentes obstáculos. O do Thiago é simples: Tentar e não conseguir viver uma paixão. Como se fosse um cavalo com um torrão de açúcar preso a uma vareta em sua cabeça deixando na distância da vontade para fazer o coitado correr… Crueldade.
As regras são simples:
-Quando o Thiago gostar de alguém essa pessoa não pode gostar dele de volta.
-Se a pessoa gostar dele, há de existir um empecilho que não permita a consumação da paixão.
-Se não houver empecilho algum, o Thiago não pode gostar dessa pessoa. Ou por questões familiares ou por questões de gênero ou por questões psicológicas ou em fim por questões de estética.
-Caso aconteça a iniciação de alguma troca de fluidos que possa ser considerada indício de paixão, imediatamente algo acontecerá para impedir que prossiga. Ou por forças da natureza, por questões de saúde, por outros amantes que comprometam essa paixão ou por falha de comunicação (incluindo celulares roubados, esquecidos, emprestados, sem carga, sem crédito e o não atendimento deste por não ser escutado ou percebido pelo vibracall).
-Se durar mais de três dias um dos dois morrerá porque deus não quer.
Se o Thiago David escrever um poema e mandar para a garota, o poema não surtirá efeito e no máximo será achado bonitinho por suas amigas que sonharão no dia em que alguém as mandará algo parecido.
Se um Zé cocô escrever o mesmo poema e mandar para a mesma garota, viverá uma grande paixão.
Se o Thiago David chegar chegando, levará um tapa, um murro e uma sprayada de pimenta nos olhos.
Se um Zé cocô chegar chegando, levará um beijo, um queijo, um vinho e uma massagem de primeira.
Se o Thiago David pensar “Eu quero ela para mim!” imediatamente a mulher em questão arranjará uma nova paixão, virará lésbica ou mudará de país.
Se um Zé cocô pensar “Eu quero ela para mim!” imediatamente a mulher em questão vai olhar para ele e ficar vermelha de vergonha por ter decidido no mesmo momento que ele é o homem de sua vida.
Em fim, o Thiago tem que se fuder. Não poderá viver paixão alguma, cabe a ele escrever, pois isso deus deixa.
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Descobriram o pós-morte. Sim, eles, os cientistas, aqueles homens de jaleco branco que ficam buscando razão pra tudo. Procuraram tanto que descobriram o pós-morte.
Foi uma reviravolta quando foi divulgada a descoberta, que na verdade não foi divulgada, foi roubada e espalhada por cartas, e-mails, telefonemas. Por fofocas e fofoqueiras! Uma reviravolta! Ninguém sabe ao certo como é o pós-morte, só se sabe que está dando para falar com os mortos. Não da para falar, falar, da só para trocar uns textos, pequenos, textos curtos, frases, pois acabaram de inventar a tecnologia. São mensagens, breves, diretas.
Depois que fizeram os postos de comunicação com os mortos o pessoal ficou meio impulsivo, se matar virou hobby. Nego se matava por falta de emprego, por briga com mulher, festa de quinze anos com vexame! Ih! A quantidade de Romeu e Julieta que apareceu por ai tomando veneno e se dando facada para viver o seu amor proibido no pós-morte não é brincadeira! Algumas escolas foram até à falência!
O engraçado foi ver os prisioneiros, aqueles que estavam com sentenças para a vida toda se matando aos montões! E a pena de morte perdeu seu valor completamente! Sem contar com os familiares das vítimas que se matavam para pegar o desgraçado que se matou na cadeia!
Com a desordem dos suicídios, os governos ficaram preocupados com sua conjuntura, com seus contribuintes, os policiais, e o exército… O que era uma guerra onde as pessoas não tinham medo de uma bala? Como conter um assaltante que despreza toda e qualquer vida? E a mão de obra? Os empreiteiros, peões? Meus deus! Eles tinham que ter seus direitos ou então se matavam!
Foram criadas leis para o suicídio, uma burocracia básica, coisa pouca, por exemplo; Papelada para distribuição de bens para herdeiros, acertos de enterro, aviso prévio de no mínimo 15 dias para arranjarem alguém para ocupar o seu emprego… coisas assim.
Com o tempo, o número de suicídios diminuiu bastante, a primeira leva foi intensa! Ninguém parou para contar, mas dizem que foi perto dos bilhões! Não tinha mais terra pra enterrar tanto defunto! Foi assinado um acordo que todos seriam cremados e ponto final. Engraçado que era de se imaginar que a igreja seria uma grande opositora, mas depois que eles mesmo conversaram com os mortos, não tinha nem como manter todo o discurso de céu e inferno.
A morte virou algo tão simples como trocar de roupa: Você chega a casa se mata e entra no pós-morte. Simples assim.
Como tudo depois de um tempo passa a ficar banal, as pessoas começaram a criar em cima do ato de se matar e desta forma nasceram as festas de despedida. Essas festas eram feitas em grande estilo, os suicidas chamavam seus amigos, antigos e novos, familiares, ex-namoradas, vizinhos, empregados, co-empregados, patrões, todos que tivessem vontade de chamar. Tendo no final da festa o suicídio do “despedido”. Cada um bolava sua morte. Era divertidíssimo, os mais sacanas faziam um grande pique – esconde na festa e se matavam em um armário, quando o achavam ele já estava no pós-morte morrendo de rir contando aos os outros o que ele fez! Os mais conservadores se envenenavam em um caixão no meio da sala enquanto todos seus convidados assistiam sua morte e davam um último tchau caloroso e sorridente. Houveram mortes tão bonitas que foram aplaudidas. Outras vezes os irmãos e primos e amigos mais íntimos do suicida pegavam seu corpo frio e faziam uma noitada sacana. Isso acontecia principalmente com os solteirões e rapazes mais jovens. Tiravam a roupa do coitado e levavam ele pela rua, ou então pintavam a cara dele e tiravam fotos constrangedoras em posições constrangedoras. Era um perigo! Os policiais tentavam até intimidar esse tipo de atitude, mas como virou algo comum, eles faziam vista grossa.
Até hoje a tecnologia não melhorou muito para falar com o pós-morte, mas já deu para saber o essencial. Ninguém mais tem paciência para ficar muito tempo pensando em alguma coisa, tudo parou um pouco, calmou um pouco, dizem que até é mais fácil viver agora que ninguém mais tem medo da morte.
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Estava lá, Seu José Pereira sentado na sala de espera. Esperando. O médico falou que era sério, falou que era grave, tirou o sangue do José para tentar provar o contrário. José sentava e esperava. Um esparadrapo com algodão estancava o furo em sua veia, seu olhar focava em um quadro colorido do outro lado da sala. Um som constante: Era o ar condicionado. Sr. Pereira? A enfermeira o chamou. Ele a olhou, apontou seu indicador para seu o peito esperando uma confirmação (mesmo não tendo mais ninguém na sala) e foi confirmado com um movimento de cabeça e um “uhum”. Sem grandes dificuldades para levantar da cadeira, lá foi José confrontar-se com seu destino na sala do doutor.
A sala do doutor era um pouco mais fria. Seria o frio que a morte faz? Entre os dois homens poucas palavras foram ditas. Assim como o frio da sala a voz do doutor ecoou com um pesar ao informar José de que seu tempo era curto. Assim como a sala e a voz do doutor, o simples homem respondeu. Tudo bem. Pegou seus resultados guardou em sua pasta de trabalho e com a mesma calma que ele teve ao entrar ele saiu, dando um cordial até breve ao partir. O doutor perplexo e imóvel só pode observar seu paciente sair da sala.
José aproveitou que amanhã não tinha sido perdida toda pela consulta tão emergencial e foi para seu trabalho para não atrasar nos seus afazeres. Ele era um entre vários outros funcionários públicos trabalhando numa secretaria da prefeitura. Não tinha nenhum afeto em particular pelo seu ofício, mas esse era seu único dever. Sempre pontual, muito correto, não tinha em si nem preguiça nem força de vontade. Entre uma papelada e outra fazia conversa casual, bebia um café com açúcar, escutava uma piada, ria dentro de seu sorriso contido… Era um homem normal.
Sua cara continuava a mesma. Não aparentava ter escutado uma notícia tão determinante ou fatalista. Parecia que ele tinha sido diagnosticado com uma singela gripe. Seus colegas de trabalho perguntaram como foi no médico, ele respondia com muita calma que não era nada demais. Seus companheiros não desconfiavam da razão pelo qual José foi ao médico. Talvez no máximo pensassem que tinha algo a ver com a tosse do cigarro. José sentou e trabalhou como todos os dias que passaram.
Quando o relógio apontou às dezessete horas, José olhou para sua mesa. Papéis soltos entre livros canetas e carimbos, um copo descartável com café ressecado no fundo, sua lamparina acesa… Sentiu preguiça. Já era hora de ir. Pegou o copo, jogou no lixo, apagou a lamparina, se despediu dos últimos coitados que estavam fazendo hora extra. Saiu pela porta da frente e caminhou para o ponto de ônibus. Esperou. Cansado do dia, ainda com um esparadrapo no braço. Como todos os dias, olhava o tráfego e calculava se seria mais rápido ir andando. Viu que seu ônibus estava pra chegar e tinha ar condicionado. Mesmo sabendo que chegaria mais rápido indo a pé, ir sentado no ar era muito mais gostoso. Mesmo sendo sem ar ele optaria pelo ônibus… José nunca gostou de andar.
Em sua demorada viagem até a casa onde morava ele pensava no que iria comer de janta, se precisava comprar alguma coisa para o café da manhã. Via as pessoas andando na rua indo ou saindo de casa. Jovens, velhos e adultos. Cada um na sua velocidade. Todos indo e vindo.
Chegou em casa por volta das dezoito horas, acendeu a luz, tirou o sapato, botou uma bermuda, abriu uma cerveja, ligou a televisão, mas desligou-a logo depois por não querer ver nada. Ligou o rádio e foi pra cozinha. Cozinha de luz fria, apertada, com uma geladeira que herdou da mãe. Tirou um macarrão, uma caixa de suco pronto, pegou um prato, botou o macarrão no microondas. Se serviu de suco (a cerveja já tinha acabado) e comeu assim que o macarrão esquentou.
Ainda ao som do som, agora de um CD de um cara que ele gostava um pouco mais que “A hora do Brasil” pegou um pedaço de papel e escreveu uns pensamentos que lhe convinham naquele momento e guardou em um envelope junto com o resultado de seu exame. Nada que não possamos esperar até o final da história pra lermos. Quando o CD acabou, José foi tomar um banho como o de costume para se preparar para o sono. Já de pijama acendeu seu primeiro e último cigarro do dia, fumou olhando pela janela, apagou as luzes da casa, trancou a porta e foi dormir. Deitou tranqüilo e logo sonhava.
Os dias seguintes, todos os que seguiram esse, foram bem parecidos exceto pela parte do médico, pelo qual ele não sentia mais necessidade de ir visitar e pela carta que ele escreveu só esta noite. De resto foi como se ele não soubesse que morreria em tão pouco tempo: Não se excedeu, não chorou, não vandalizou nem fez qualquer loucura. Ele continuou sua vida da mesma forma em que ele sempre levou.
Assim como esperado, um dia ele não foi ao trabalho. Não ligou pra ninguém avisando sua falta. Tão estranhamente ele não foi comprar o pão do café, nem o jornal na banca. O vizinho estranhou a ausência do som depois das dezoito horas. Alguns dias depois estranhou o cheiro. José pereira deve ter esquecido alguma coisa fora da geladeira e ter viajado, ele era meio distraído, sempre foi. O telefone de sua casa tocava sempre e ninguém atendia. Eram seus colegas de trabalho querendo saber o que aconteceu. Ninguém soube de José.
O cheiro ficou insuportável. Maldito José que não se lembrou de guardar a comida antes de viajar! Pensaram os vizinhos do mesmo andar. Em um ato de desespero um morador fez um abaixo-assinado para todos os outros demais moradores arcarem com os custos do arrombamento da porta de José. Em unanimidade arrombaram a porta do coitado que estava deitado morto no sofá para o espanto de todos. Alguns desmaiaram, outros taparam os olhos, e os mais frios ligaram para a família do falecido para avisar do ocorrido.
Um morador mais curioso viu uma carta em cima da mesa em um envelope. Que Deus não castigue os curiosos! Pois ele viu o resultado do exame de José Pereira. Divulgou seu achado com todos os outros indivíduos chocados e escandalizados da sala. Ele sabia que ia morrer faz 3 meses! Um vizinho gritou ao ver o exame. Outro pegou a carta e leu. Enfim saberemos o que José descobriu em seu dia fatal!
Hoje descobri quando morrerei. Incrivelmente nada mudou para mim. A morte sempre foi inevitável. A morte é o meu destino e de todos os outros também. Em mim não existe medo, nem ânsia, nem raiva. Vejo a morte como sono, como a fome, como a sede. Ela faz parte da vida. Não entendo aqueles que sairiam como loucos pela rua para fazer tudo que não podiam, correndo contra o tempo. Será que estes não entendem que o tempo nunca é suficiente? Sempre se morre cedo demais, jovem demais… Na verdade se vive o suficiente, se vive o que coube a vida.
Todos sabemos que todos morreremos, podemos morrer a qualquer instante. Mesmo assim não vejo as pessoas correndo como loucas em completa anarquia. Vivemos o que somos capazes de viver. Viver pra mim já é suficiente.
José Pereira
Assim que o curioso terminou sua leitura, passou a carta adiante para os próximos curiosos que leram com exímio interesse ignorando por completo o mal cheiro do apartamento e o morto. Todos leram a carta, alguns leram duas ou até três vezes. Que homenzinho peculiar! Eles falavam. Que pensamento mais estranho este! Ficaram criticando José até a defesa civil chegar para levar o defunto. Mesmo sem a presença do dono da casa alguns vizinhos continuavam a debater e chegaram à conclusão indubitável de que ele era louco.
Independente do que eles falaram ou concluíram, nessa mesma noite na hora do sono, deitados na cama, todos reconsideraram o que leram e viram que poderiam morrer nesta mesma noite ou na manhã do dia seguinte. Dentro da impotência de não poder escolher o dia de suas mortes eles viram que fizeram tudo que puderam. Viveram como deu. Como a vida veio. E isso já era suficiente.
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Assim como quem não pensava em nada, ele pensava em tudo e morria de saudades.
Justamente o tempo que ele tirava pra fugir de tudo, principalmente de seus pensamentos, serviram como prisão integral de tudo que o atormentava. Ele tentava esquecer, ia pra lugar nenhum olhar pro nada, andava solto sem rumo por ruas estranhas e arborizadas… Ele buscava esquecer, procurava um novo pensamento, um novo caminho. Ele queria viver de uma maneira diferente daquela que tinha vivido. Não mudando completamente, mas sim relevando os acontecimentos releváveis da vida, pra poder continuar tentar viver com um mínimo de paz.
Que tarefa difícil essa que ele escolheu. Todos os lugares que ele passava não levavam a lugar algum novo, mas somente para um destino fatal. O de estar preso a si, seja onde for.
Em seu desespero de não poder correr de seu maior tormento, seu destino final era inquestionável. Seu vilão teria que ser encarado, ele se confrontaria.
Por onde começar? O espelho não ajuda em nada… Seus olhos não demonstram nada mais do que suas cores. Ele só via uma imagem de uma pessoa com pequenas olheiras e ombros tensos, isso não ajudava, isso não acalmava, isso não era nada. Sentou-se numa poltrona acolchoada, botou seus cotovelos em seus joelhos, curvou a coluna e enfim pos sua cabeça sobre suas mãos tapando-lhe os olhos. Saiu em busca daquilo que o fazia miserável: Seu pensamento.
Primeiro bastou-se a pensar sobre seus problemas fáceis, os pequenos problemas diários, os afazeres chatos da casa, dos estudos, do trabalho… Isso é tão banal! Isso não é problema de verdade. O que verdadeiramente o atormenta?
Pensou sobre a morte. No obscuro espaço do pensamento, do escuro dos olhos fechados, a morte veio fazer-lhe uma visita. Uma imagem acinzentada. Seus avós falecidos, sua infância passada, o seu choro fácil que passou a ser difícil, sua passada paixão por coisas, sua única paixão retribuída que acabou e o fim de sua liberdade.
Categoricamente essas seis idéias apareceram e variaram na cabeça do rapaz, seis mortes, seis saudades. Como é possível ser consumido tão intensamente por idéias?
Seus conflitos estavam postos. No fundo a dor era que o tempo passava e não voltava pra replay, e se voltasse por fitas de vídeo… Causaria somente uma injusta nostalgia. Essa é a dor de uma morte em vida, a dor de uma saudade que se perdeu no pensamento. Imensurável, irremediável coquetel de idéias e imagens.
No fundo essa era uma incapacidade de viver o presente. Incapacidade de chorar a tristeza presente, e sim só a passada. Incapacidade de se deixar levar pela juventude ainda presente nos seus vinte anos. Um preso. A prisão mais cruel é aquela que se faz para si. A liberdade existe mesmo entre quatro paredes, ela não acaba mesmo num cubículo.
Paixões? Essas são feitas das loucuras. Tem que estar louco pra se apaixonar por algo ou por alguém. Essa é nada além de uma obsessão. Ao se achar louco por não se apaixonar por nada, não é a loucura que se tem, e sim a plena e excessiva lucidez. Ninguém em mente sã se apaixona.
O jovem imerso em seus pensamentos levantou um pouco a cabeça ainda de olhos fechados, numa overdose de pensamentos arriscou abrir os olhos. A claridade causou uma óbvia fotofobia, o dia ainda era meio dia, o desespero ainda tomava seu corpo, saber o que causa o mal não é achar uma cura.
Com um copo de água na mão ele pensa – essa é minha cura – bebe, e não sente mudança alguma. Querer melhorar também não cura.
Já desacreditado na melhora, caminhando pra lugar algum, continua pensando sobre si… A partir de qual momento passou a ser seu pior inimigo? Por que a felicidade é tão difícil? Tão longe? Tão abstrata?
Sem respostas, ainda aflito, lembra-se de beijos e palavras boas de seus tempos de amante, lembra-se do carinho da vó, de brincar na areia, de amar tudo com uma empolgação sagaz, de chorar por qualquer tristeza, e enfim de não se pensar nem se preocupar de estar chorando, ou amando tudo, ou sujo de areia, ou estar recebendo carinho da vó e principalmente de trocar beijos… Pois tudo era tão natural, tudo podia. Essa era a liberdade que ele tinha, e que sente tanta saudade.
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Ele se olha no espelho, bochecha e cospe na pia o restante da pasta de dente que estava em sua boca. Abre um sorriso verificando se tinha limpado bem os dentes, cutuca seu canino com o dedo, volta a uma expressão séria, apaga a luz e vai para o quarto. No quarto está sua cama de casal com um travesseiro, uma estante com um amontoado de livros, algumas fotos de família, outras de sua infância. Na sua cabeceira tinha uma lamparina, um telefone, uma caneta e um caderno. Em cima de sua cama tinha um quadro colorido.
Deitou em sua cama, olhou a porta do banheiro e a porta de seu quarto, ambas fechadas, sua janela com as cortinas cerradas, virou para o lado, viu sua escrivaninha com um peixe num aquário sujo, uma calça, uma pilha de livros, papéis de bala e na pontinha, quase caindo, seu jaleco que usaria no dia seguinte. Ele pensou – tenho que arrumar isso… – mas decidiu fazê-lo no dia seguinte, seria sábado.
Apagou a luz azul da sua lamparina depois de ter se coberto. Suspirou insatisfeito, fechou os olhos se imaginou numa montanha deitado no sereno, imaginou nuvens cinzentas, uma árvore escura e um lobo. Ele abriu o olho. Não gostou do lobo. Virou-se para o outro lado, botou um braço por baixo do travesseiro, fechou os olhos mais uma vez e imaginou-se na mesma montanha, mas estava chovendo, as nuvens estavam mais carregadas e um raio azulado cruzava o céu com grande intensidade junto com uma ventania insuportável. Estava frio. Tentou imaginar um sol, mas o sol ficava cinza, tentou imaginar uma praia, mas ela estava em ressaca, tentou imaginar os amigos, mas não aparecia um querendo conversar. Pensou nas mulheres, no trabalho, num violão, lembrou-se menino com um violão, lembrou de tentar aprender a tocar, pensou nas cordas vibrando, no buraco escuro no violão, ele entrou no buraco do violão, lá estava sua mãe e pai num show de música, seus padrinhos e avós, não havia música, lá estava aquela menina que ele conheceu quando tinha 15 anos. Ele foi falar com ela – Oi – e ela respondeu – Não se esqueça de amarrar o papagaio – ele entendeu e disse – Sim eu vou amarrar depois das três.
De repente ele acordou, abriu os olhos e viu um homem encapuzado em seu quarto vasculhando seu quarto cuidadosamente com uma lanterna. – Ei! – Exclamou o homem assustado. – Bang – fez o ladrão num reflexo ao atirar no homem em sua cama. Um grito se ouve. Esta é a agonia de um homem. O ladrão sai correndo, O homem fica na cama, ele geme, sua mão tenta tapar o buraco em sua barriga. O Sangue se espalha em sua cama, ele tenta se levantar, mas não consegue, não consegue mexer suas pernas. Viu o telefone em sua cabeceira e tentou o alcançar. Seu abdômen agora completamente sujo de sangue não lhe dava mais forças para alcançar o telefone, estava tão perto, tão inalcançavelmente perto, não dava, não dava nem para respirar direito. Num suspiro de força e exaustão ele se arrastou com dificuldade se apoiando em seus cotovelos chegou muito perto. Ele se esticou todo, seus olhos cheios d´água lutavam para alcançar o telefone, seus dedos estão tão próximos, tão próximos, dá para sentir a textura do aparelho. Uma última tentativa desesperada resultou num acidente inesperado, sua mão bateu com demasiada força no telefone que caiu no chão ficando fora do gancho restando somente o sinal de linha ecoando no quarto, como uma sinfonia para sua morte. O homem chorou.
Um frio macabro tomou seu corpo, seu sangue ensopava, esfriava e manchava sua cama. Cada movimento era marcado por um barulho de cama molhada, cada movimento manchava de sangue uma parte nova de seu quarto. Seu travesseiro, sua cabeceira, seu lençol, seu chão. Tudo estava sendo tomado por seus restos. O desespero era grande, mas não se ouvia gritos, nem mesmo sussurros, se ouvia um ranger dos dentes e um grunhir a cada espasmo de dor. Ele se engasgava com a própria saliva. Olhou para suas portas. A porta do seu quarto aberta, a do banheiro fechada. Ele pensou – será que esqueci de trancar a porta?– como era possível alguém ter entrado lá? Difícil entender. O que possivelmente queriam lá? Ele era um homem razoavelmente simples, um trabalhador sério. Seria isso um assassinato? Estariam querendo matar Este Jovem homem? Ou seria um simples assalto?
A morte sentou-se ao seu lado e respondeu – Eu abri a porta para ele entrar – O homem com grande espanto olhou para o lado e viu uma figura estranha e inenarrável sentada ao seu lado. O homem indignado respondeu a figura sentada ao seu lado – sacanagem isso! – A morte olhou para ele como uma mãe olha para um filho e esclareceu a ele que todos morrem um dia. É normal, era seu dia. O rapaz protestou dizendo ser uma grande injustiça pois ele não era merecedor, tinha trancado a porta! Mas ela respondia que era sua hora, ela só facilitou, não tinha alternativa. Ele em desespero olhou a morte no olho e disse – Então que você acabe logo com minha vida e me tire desse sofrimento! – Ela respondeu acariciando seu cabelo duro e seco de sangue – Não – e sumiu deixando-o sozinho com suas manchas de sangue, suas pernas sem movimento e o telefone com o toque de ocupado no fundo.
O homem olhava para os lados buscando uma saída, tinha que existir uma maneira de escapar essa morte tão sofrida, seu suor pingava em seus olhos, sua mão não tinha coordenação suficiente para limpar seus olhos, movimentos bêbados resultavam em pancadas violentas de suas mãos caindo sobre seus olhos. Sua visão ofuscava, seus olhos ardiam. Não lhe restava força pra gritar. O barulho do telefone no fundo fazia-o lembrar dos telefones de emergência que aprendeu desde seus sete anos. Fazia lembrar de todos os telefones dos parentes que moram perto, o telefone do vizinho, o telefone do sobrinho… Mas não existia telefone para ele naquele momento, existia somente o sinal de ocupado, sua vista ofuscada e o molhado no colchão. Ele olhou o peixe, pensou em quem cuidaria dele quando enfim sua respiração parar. Pensou no trabalho do dia seguinte, pensou na sujeira que as pessoas vão encontrar quando entrarem e descobrirem seu corpo apodrecido na cama manchada de sangue. Quanto tempo demorariam para o acharem? Alguém tentaria ligar? Alguém viria visitar? Ou será que somente quando seu cheiro chegar ao ponto do insuportável que perceberão sua falta?! Que triste. Será que alguém enterrará seu peixe?
Sua mãe entrou calmamente pela porta do seu quarto e perguntou – Oi filho! Tudo bem? – e ele respondeu – Eu acho que não – Ela respirou e disse para ele que era óbvio que tudo estava bem, para ele não se fazer de tolo, quantas vezes ela não já tinha falado que exagerar quando qualquer bobagem acontecia iria fazer ninguém acreditar na emergência quando essa realmente se der. Ele falou que essa era uma emergência, ela negou. Emergência não é brincadeira, o mundo não esta acabando. – O mundo acabará para mim – ele enfatizou, mas ela respondeu friamente – você não é o mundo, você é só mais um -. E ela desapareceu.
Ele respirava muito rapidamente, sentia todo seu abdômen contrair e queimar, o cuspe que ele se engasgava agora era sangue que lhe escapava do pulmão. Lembrou-se de uma canção de quando viajava, tentou cantar, mas sua voz não saia. O quarto estava mais escuro do que o normal. Tudo ficou escuro.
Sua mãe entrou histérica no quarto! Ela gritava e chorava e tremia, tapava sua cara com as mãos, botava as mãos sobre o filho que a olhou e falou – Calma mãe ta tudo bem – a mãe gritava – Não! Não esta tudo bem! Olhe para você! – ele respondeu que já tinha se visto, e que isso era normal. A morte é normal, mas ela não suportava a idéia. Com sua mão sobre o machucado de seu único filho enfiou um de seus dedos para dentro da ferida do filho, sentiu um tecido úmido, quente, pulsante. Ela enfiou mais um dedo, mais outro, enfiou a mão dentro do abdômen do filho em busca da bala que lhe causava tanto sofrimento. O filho somente observava o ato de sua mãe aos prantos com os olhos bem abertos e tensos com um ar de esperança que ela acharia a bala. – Mãe você vai achar a bala? – Ela responde – Sim meu filho, eu vou! – Ele aumenta o tom de sua voz – Mãe você vai achar a bala? – Ela mais tensa responde – Meu filho! Eu estou tentando! – Ele pergunta gritando – MÃE VOCÊ VAI ACHAR A BALA? – e ela nervosa se desespera e ao tirar sua mão bruscamente de dentro da barriga de seu filho grita – EU NÃO CONSIGO! EU NÃO CONSIGO! NÃO POSSO ACHAR BALA NENHUMA! ACHE VOCÊ ESSA BALA! EU NÃO POSSO MAIS! – e assim o rombo na barriga do homem estava que claramente mais aberto começou a ser explorado pelo homem, que não conseguia penetrar sua mão muito alem dos intestinos por falta de força, e assim ele respondeu a mãe que também não conseguia, e começou a chorar. Ela levantou foi limpar suas lágrimas começou a cantar uma música de ninar. Ele fechou os olhos com lágrimas ainda escorrendo sua face.
Sua mãe entrou no quarto, calmamente, olhou o filho no olho e disse – Meu filho, nessa vida somos aquilo que somos, fazemos o que fazemos e não passamos muito disso – O filho respondeu – Mas mãe, e o que fazem comigo? – Ela serenamente replicou – Ou é karma ou é destino – ele fechou seus olhos.
Sua boca estava seca, sentia que não estava pensando direito, tudo estava meio fundo, meio pesado. Não entendia a sua mãe, o que ela fez lá? Por que não chamou um médico? Sua barriga não estava tão aberta como imaginava. Seus braços já estavam quase imóveis, sua cabeça já estava mole, seus olhos já não conseguiam focar nos objetos em seu quarto. Passou rapidamente com seus olhos no quadro colorido a cima de sua cabeça. Uma pontada de dor o fez fechar os olhos sentindo a agonia em todo seu corpo. Todo seu corpo se comprimia, todo seu corpo estava frio, todo seu corpo sofria. A imagem do quadro se perpetuou em sua cabeça, todas aquelas cores deviam trazer tanta alegria! Um fundo amarelado com triângulos vermelhos e azuis, uns traços verdes com contornos pretos. Ele queria fugir para aquele quadro, ele queria ser uma mancha colorida naquele quadro, uma mancha laranja, ou uma mancha de café, pra mostrar que ele ficou muito tempo pintando o quadro, ou para ser um toque de cotidiano em algo tão distante da vida. Uma mancha de café, quente, com fumaça saindo dele, um biscoito, um pão, fresco, um queijo, derretido, um presunto, um porco, uma faca, um porco, porco grunhindo agudo, o sangue, a morte, o pão. A morte estava em todos os lados. Ele olhou para seu peixe, que respondeu a ele que era melhor viver dez anos a mil do que mil a dez. Ele olhou para o peixe, num aquário pequeno de água cinzenta, sem pedras, sem algas, sem nada, só água, e ficou perplexo. Peixe vive dez anos? Ou melhor, como assim?! Que vida intensa é essa que ele ta falando?! Ele vive num aquário imundo, alimentado com uma comida que vem num potinho com gosto de plástico, a água que ele usa pra se manter vivo esta cheio de seus dejetos. A mil? Aonde? Ele não sabe do que fala. Peixe inútil.
Dor, mais um espasmo, seguido por outro maior ainda terminam suas divagações sobre o peixe. Que dor insuportável! Que sede! Que tristeza! Que desespero! E o telefone no fundo, incessante “tu tu tu tu tu tu”. Ele tenta gritar, alguém tem que ajuda-lo, mas sua voz não consegue, seu corpo não permite. Ele tenta se ajustar na cama, pressiona seus cotovelos no colchão úmido e vermelho, nada acontece, tentativa em vão. Vida em vão.
Ele olha para cima, olha o quadro, e imagina que antes de morrer de dor, se aquele quadro cair sobre sua cabeça talvez ele fique desacordado e pule a parte do sofrimento em sua morte. Ele sabia que não tinha mais tanta força, e uma tentativa já seria mais do que ele pode agüentar, mas seria só uma. Ah! Como seria bom morrer agora. Ele se prepara, mede, e arrisca. O quadro balançou um pouco, mas não caiu. A dor já não tem tamanho, ele precisa tentar mais uma vez. Mais uma vez ele mira, e ao invés de bater no quadro ele resolveu levanta-lo um pouco para sair do eixo do parafuso. Bam! Ai! O quadro não foi pesado o suficiente. Ele continua vivo, continua na mesma cama, no mesmo sangue, no desespero, na raiva, na frustração! Ele não consegue gritar! Ele não consegue mais grunhir suas dores. Ele deita imóvel, e sente seus restos saírem de seu intestino a acariciarem seu rim, seu pâncreas, ele sente a felicidade da bala, ela conseguiu. Missão cumprida.
O quadro esta sobre sua cabeça tapando sua visão quase por completa. Somente podia ver seu peixe, a pilha de livros e seu jaleco ao som incessante do telefone fora do gancho. Respirava fundo, respirava intenso, chorava sem fazer um som. Socorro.
Ele não conseguia mais mexer seus braços, não conseguia mexer sua cabeça nem sua perna. Os seus olhos piscavam dificilmente e o pouco sangue que ele regurgitava, engolia.
Deus, Diabo, inferno, alma, reencarnação, karma, Judaísmo, Islamismo, Budismo, Cristianismo, Taoísmo, Candomblé, Espiritismo… O que é a verdade? O que vai acontecer com ele? Ele se pergunta – será que existe uma alma em mim? – Não tem como responder, e a questão cresce nele, agora já sem sentir nada, sentindo somente o sangue escorrendo sua garganta. Será que ele verá uma luz? Será que simplesmente tudo apagará? Será a morte como uma soneca? Você não sabe como começa, nem o que acontece por horas, o mundo continua, tudo acontece. Parece que o tempo pula. Ele não sente sua alma querendo partir, não sente nenhuma força extraordinária ao seu redor, ele só respira e vive.
Ele olha pro peixe, o peixe o olha. E a morte senta do seu lado mais uma vez. Ela olha sua situação, acaricia suas pernas, ele não responde. Ela pensa – Será que ele morreu? – não… ele ainda esta vivo, sua respiração esta fraca mas continua. Ela pergunta pra ele – Como estão as coisa meu rapaz? – E ele responde num sussurro fraco – Indo – ela sorri, entende e diz – A vida é para poucos, é um privilégio, por que você quer morrer logo? – ele sem pensar duas vezes respondeu – Isso aqui não é vida – terminando sua frase por uma série de tosses. Ela levantou o quadro de sua cara e perguntou – Melhorou agora? – Ele a olhou e respondeu que para realmente melhorar tudo isso tinha que acabar de vez, ou ao menos que alguém chegue para ajuda-lo. Ela sorriu, limpou sua boca suja com o lençol, e disse que a vida é a solidão. Sozinho todos estamos o tempo todo, não se engane, interagimos com os outros, fazemos amizades, temos filhos, mas você só depende de você, ninguém mais te dará vida, ninguém pensa o que você pensa, ninguém olha o que você olha, quando você morre ou nasce, é você e pronto. Ele de olhos fechados, falando baixo disse que ele era os outros, e que morrer sozinho era morrer com todos dentro dele. O que era ele senão uma mistura de tudo que aconteceu na sua vida, principalmente junto aos outros. A morte suspirou e cochichou em seu ouvido – Você morre sozinho –.
Ele ficou sozinho, olhou para o lado, seu peixe, talvez de maneira romântica, morreu antes dele. Pensou que se tivesse limpado o aquário antes de dormir talvez isso não teria acontecido tal fatalidade, mas esse futuro era inevitável. Seu futuro era inevitável. Sua morte, em sua cama, sua dor.
O sangue estava subindo mais uma vez sua garganta, o calor viscoso se arrastava até culminar no céu da boca do coitado que respirava nessa mesma hora. O sangue se perdeu por suas vias respiratórias, a tosse era incontrolável, bolhas de ar e sangue estouravam em sua garganta. Tosse, tosse, ele tenta respirar. Não consegue. Ele luta para respirar. Não consegue. Ele tenta sentar-se, não consegue, ele tenta limpar o sangue de sua boca, mas sua mão não responde, ele tenta cuspir, mas não consegue. Seus músculos contraem, seus olhos viram, seus dedos se contorcem, ele sofre.
Enfim ele parou de respirar. Seu corpo ficou deitado, imóvel. A morte olhou seu corpo, e saiu pela porta. O peixe flutuava em seu aquário, o quadro ficou sobre sua cara escondendo suas últimas caretas, sua estante continuou do mesmo jeito que no inicio da noite, e no fundo, um leve barulho ecoava no quarto vazio, o barulho de ocupado do telefone.